Um pouco de culpa
quinta-feira, 17 de junho de 2010 @ 04:59
Cuida agora de empilhá-las, uma a uma, como uma engrenagem põe à prova o rumo do relógio e seus ponteiros que dão voltas, voltas, para todo tempo não passar de uma ciranda com centro nenhum - no antebraço um paninho roto molemente distraído, a um passo de estar ali por acaso (fosse menos precisa a preguiça de sua disposição) e, no esquerdo, nada; é assim que circula à mesa, giros, incontáveis bitucas de cigarro e flashes desta mesma noite amanhã ou depois, vez em quando pára numa das quinas para checar a parte de baixo do tampo, mas é vidro e ele sempre esquece que se dá a ver se um pouco mais atento:“se”, a noção do lento diluída numa frouxidão maior, mas é tempo de fazer, ah, se ele apenas soubesse do contrário, quem sabe vestígios outros nesse prato de comida? Ou talvez do guardanapo que retira, põe ao bolso (e falta a marca do batom) – alguma coisa ainda resiste e ele está: aqui, só, apenas –, contasse então aquelas horas que passara resmungando da displicência nas tarefas, do recato inútil a comer, maneiras mil de estender o dia a algo mais que aquela cama e os travesseiros; mas de pensar desiste e retoma a realidade vaga das que guarda, essas tristes, de recalque no chão inerte, as cadeiras.