Um pouco de culpa
quinta-feira, 17 de junho de 2010 @ 04:59
Cuida agora de empilhá-las, uma a uma, como uma engrenagem põe à prova o rumo do relógio e seus ponteiros que dão voltas, voltas, para todo tempo não passar de uma ciranda com centro nenhum - no antebraço um paninho roto molemente distraído, a um passo de estar ali por acaso (fosse menos precisa a preguiça de sua disposição) e, no esquerdo, nada; é assim que circula à mesa, giros, incontáveis bitucas de cigarro e flashes desta mesma noite amanhã ou depois, vez em quando pára numa das quinas para checar a parte de baixo do tampo, mas é vidro e ele sempre esquece que se dá a ver se um pouco mais atento:“se”, a noção do lento diluída numa frouxidão maior, mas é tempo de fazer, ah, se ele apenas soubesse do contrário, quem sabe vestígios outros nesse prato de comida? Ou talvez do guardanapo que retira, põe ao bolso (e falta a marca do batom) – alguma coisa ainda resiste e ele está: aqui, só, apenas –, contasse então aquelas horas que passara resmungando da displicência nas tarefas, do recato inútil a comer, maneiras mil de estender o dia a algo mais que aquela cama e os travesseiros; mas de pensar desiste e retoma a realidade vaga das que guarda, essas tristes, de recalque no chão inerte, as cadeiras.
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César Augusto não tem limites
quinta-feira, 10 de junho de 2010 @ 02:14
Bati punheta agora há pouco. Pensei
que a minha irmã estava dormindo e
aproveitei a brecha para acordar
meu pau.
Foi então que, de repente,
quando o orgasmo vinha vindo,
ele na mão, eu assentindo, parecia até
Natal - ela veio até a mim e
pediu, gentilmente: "Passa o copo
d'água". E eu botei ele para dentro,
emputecido com o flagra.
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interlóquio
@ 02:12
hoje à tarde eu tive um
sonho
que me pôs
para dormir
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muitos pontos finais para chegar / a lugar nenhum
quarta-feira, 9 de junho de 2010 @ 12:25
Feito um testemunho fincado na bagaça
dessa louça suja na cozinha,
os quartos fazem sala para ninguém
e eu escuto cada barulho que se arreganha
à inclinação das ruas.
A praça ao lado está deserta
mas os carros ainda buzinam, as pessoas
ainda reagem feito vacas
a assovios de chamar atenção.
E eu aqui, quieta a minha matraca,
há dois dias que não faço nada
e isso é tudo.
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Escusa -
quarta-feira, 2 de junho de 2010 @ 21:26
"Há muito tempo eu via tudo. E tudo era muito grande de se dizer, então falava "tu". Era engraçadinho e explicava perfeitamente ao que se referia o todo, porque tudo é mais que todo. Pode-se muito bem ser todo sem ser tudo - mas era "tu", todo. Sem a vírgula talvez. Não tem a menor importância que você não seja nada disso agora, na verdade é até bom que eu saiba o que existe além, um mundo inteiro e a consciência da impossibilidade de enxergá-lo - faz atentar para a beleza. Que fique claro desde já: esse não é mais um texto de amor. Que fique ainda mais claro: que saber não ofusque o que é lindo. "
Trechinho besta de sei lá o quê.
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Final inventado
terça-feira, 1 de junho de 2010 @ 02:35
Esse era um exercício do curso de escrita onde pedia-se que criássemos um final para um livro qualquer que não tivessemos lido, a partir de um trecho na penúltima página. Escolhi Tristessa, de Jack Kerouac, que eu na verdade li há um tempinho, mas fiz questão de conter impulso de reler o final ou mesmo o livro inteiro. Ah! O final não tinha de, necessariamente, ter uma relação direta com o fragmento escolhido. Vai aí o resultado:
"- Então eu volto para a cama, prostrado - a algum lugar, em suas entranhas - Algumas pessoas são só entranhas, sem coração - Eu fico com o coração - Você enfia espadas no corpo - Você bebe - Você estoura laranjas - Eu fico com o coração e viajo (...)."
Mais uma vez, volto. É de uma redundância sem tamanho o retorno. A realidade parece ter expoentes inertes pelo insulfilm da janela, mas é bem verdade que a poeira corre no asfalto. Até mesmo às calçadas que parecem incólumes e estáveis despontam metamorfoses de experiência: conserva a ninguém o hábito com sua fertilidade trágica de atitude - impossível cristalizá-lo ou suas crias. A rua se dispersa fragmentada no meu imaginário - se eu apenas pudesse reter esse instante... quem sabe as ruas despertariam iguais amanhã; mas periga de as esquecermos para nunca mais, e é tão bonito sentir saudades. Daqui a pouco estarei em casa e essa verdade vai além do asfalto que ultrapasso a cada semáforo. Carros, lojas. Pessoas no ponto de ônibus. Será que ele vem? Aguardam, assim mesmo. Parece interminável, o asfalto - precisa ser, o caminho tem de seguir adiante. Pensando bem, talvez seja o asfalto quem nos ultrapassa, nele sim precede uma objetividade de concreto, e, mais importante, de matéria - é maravilhoso que "a causa permanente das nossas sensações" (era assim a definição de matéria que um dia li) não seja estática; e que una pontos, cidades, pessoas. Sentir no íntimo a Imagem em todas as transformações. É necessário ver para chegar aonde quer que seja. Ainda bem. Eu, que pensava o eterno lindo, mal consigo suportar as instâncias do acaso. Quanto mais o que se perpetua agora! Preciso tanto repassar os fatos para acreditar.... Sei que é necessário mais que a visão para distinguir figuras, mas estou voltando para casa e faz frio. O frio me corta as asas, entende? Não é a primeira vez. São tantas faltas que me recuso a ser abatida pela verdade, ela não há de mudar o que já foi. Agora, vou eu. É bom que as coisas fluam, que eu não tenha de -
Como é ruim estar de volta, meu Deus.
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