Final inventado
terça-feira, 1 de junho de 2010 @ 02:35
Esse era um exercício do curso de escrita onde pedia-se que criássemos um final para um livro qualquer que não tivessemos lido, a partir de um trecho na penúltima página. Escolhi Tristessa, de Jack Kerouac, que eu na verdade li há um tempinho, mas fiz questão de conter impulso de reler o final ou mesmo o livro inteiro. Ah! O final não tinha de, necessariamente, ter uma relação direta com o fragmento escolhido. Vai aí o resultado:
"- Então eu volto para a cama, prostrado - a algum lugar, em suas entranhas - Algumas pessoas são só entranhas, sem coração - Eu fico com o coração - Você enfia espadas no corpo - Você bebe - Você estoura laranjas - Eu fico com o coração e viajo (...)."
Mais uma vez, volto. É de uma redundância sem tamanho o retorno. A realidade parece ter expoentes inertes pelo insulfilm da janela, mas é bem verdade que a poeira corre no asfalto. Até mesmo às calçadas que parecem incólumes e estáveis despontam metamorfoses de experiência: conserva a ninguém o hábito com sua fertilidade trágica de atitude - impossível cristalizá-lo ou suas crias. A rua se dispersa fragmentada no meu imaginário - se eu apenas pudesse reter esse instante... quem sabe as ruas despertariam iguais amanhã; mas periga de as esquecermos para nunca mais, e é tão bonito sentir saudades. Daqui a pouco estarei em casa e essa verdade vai além do asfalto que ultrapasso a cada semáforo. Carros, lojas. Pessoas no ponto de ônibus. Será que ele vem? Aguardam, assim mesmo. Parece interminável, o asfalto - precisa ser, o caminho tem de seguir adiante. Pensando bem, talvez seja o asfalto quem nos ultrapassa, nele sim precede uma objetividade de concreto, e, mais importante, de matéria - é maravilhoso que "a causa permanente das nossas sensações" (era assim a definição de matéria que um dia li) não seja estática; e que una pontos, cidades, pessoas. Sentir no íntimo a Imagem em todas as transformações. É necessário ver para chegar aonde quer que seja. Ainda bem. Eu, que pensava o eterno lindo, mal consigo suportar as instâncias do acaso. Quanto mais o que se perpetua agora! Preciso tanto repassar os fatos para acreditar.... Sei que é necessário mais que a visão para distinguir figuras, mas estou voltando para casa e faz frio. O frio me corta as asas, entende? Não é a primeira vez. São tantas faltas que me recuso a ser abatida pela verdade, ela não há de mudar o que já foi. Agora, vou eu. É bom que as coisas fluam, que eu não tenha de -
Como é ruim estar de volta, meu Deus.