Transição
quarta-feira, 7 de outubro de 2009 @ 06:10
Madrugada. Eu me esparramo nos lençóis e fecho os olhos. Dispo-me das poucas fantasias que extendem minha vigília, deito de bruços e aguardo o toque de recolher. Que ardor incongruente vem em seu lugar, quem sabe um lapso de coisa nenhuma queimando a epiderme dos meus pulsos que agora crispam arrepios de emergência: um palpitar latejante, mas indesejado. É dia de descanso, e hoje meu silêncio reinvidica o sono ausente com os lábios cerrados. A ânsia contida flameja antes de por fim apagar naquele fogo que se funde às sombras do quarto, desvelando minha nudez precária, pálida. Não some sob as pálpebras a inquietação de estar aqui, esperando; e é com o pensamento triste que sinto ciúmes desse travesseiro atrelado a cama, repousando com uma doçura maior que minhas distâncias. O comprimento da cama nos ultrapassa, mas não há espaço para mim. Choro uma agudez indizível enquanto rompe a manhã lá fora com pinceladas fracas de laranja. Passo eu, passam as lágrimas, não sei. Descompasso. O sol nasce com ares de fogueira, clareando a escuridão do quarto - e meu coração se deixa tomar pelo entardecer numa pancada tátil, cheia de ternura.