De olhos bem abertos
quarta-feira, 16 de setembro de 2009 @ 07:52
Acordo e visto jeans esquecidos à revelia de um canto abarrotado de roupas e bichinhos de pelúcia que há muito não pertencem ao pé da cama. Coloco-os. Sei que estou desperta pois me ergo e sustento o peso do corpo extenuado em passos trôpegos, mas bastantes ao trajeto até a cozinha e preparo um café que me põe, senão de pé, ao menos atenta. Balbucio algumas palavras dispersas sobre o cansaço, ainda assim palavras, longilíneas e doces frases se constroem e quando vejo já escrevo. Só se escreve de olhos abertos, é o que penso, regozijada de um vigor pulsante cheio de lascívia para o resto da semana. Olhos abertos para tudo que se arreganha frente ao meu torpor clamando análise e altivez, sem espaço para lamentos ou reticências inúteis - hoje meu cansaço ruge uma exclamação de bicho, minha fera predomina ante o silêncio, um silêncio sem consolo nem aceitação: minha renúncia, minha sobrevivência. Estou acordada, repito, as pálpebras pendem ao calor da cama e no entanto recomeço a escrever sem razão ou porquê. Tem na minha insistência uma conotação calabresa dos que imigram para o lado de cá e se mostram perdidos frente ao asfalto empoeirado e as prostitutas carcomidas, mas prosseguem, resolutos de paixão pelas causas perdidas; será em vão?, pergunto-me, e continuo a escrever. Palavra, toma meu esforço com alguma compaixão, brota das paredes deste quarto adolescente, diz qualquer coisa sucinta de muita leveza e significado como o saber da cor branca. Branco: límpido, verdadeiro, limpo. Sigo adiante. Sigo. Solução, onde está você? Não há resposta, concluo, e me refaço aos cacos com a esperteza de uma raposa outra na cadeia alimentar, buscando mais que o galinheiro, mas a galinha dos ovos de ouro.