Sobre a chuva e a higiene
quinta-feira, 4 de junho de 2009 @ 10:01
Mas como eu haveria de saber que o pânico deixaria um rastro de reminiscências, daquelas que nos atam ao desconhecimento frívolo, o de saber e não saber - saber à porcos e poucos, vislumbrar apenas um feixe escroto de palavras desarticuladas, impróprias à inércia de existirem sem razão e ainda assim perdurarem -; e que o pânico, hoje morto, cercearia esta gelatinosidade disforme qual um espectro que, sem lacunas outras para preencher, tomaria as rédeas da decomposição, deixando resíduos irremovíveis frente a premissa de um futuro sem medos? O medo, o mesmo de antes e sempre, pai das viscosidades miríades, viscosidades vizinhas aos prantos e apelos que, negados, via-se correrem pelo ralo como a família que desbrava a seca; e a seca era eu, era eu, até o estopim de branquidão clarear tudo – desligada a torneira, dissipava-se a água com sujeira e sujeição liquefeitas numa mistura trágica, e com todas aquelas padronagens lisérgicas no chão me restavam apenas os traquejos da vaidade, com a falsa promessa de progresso que a nulidade não traria, e eu não sabia, não podia saber. Afinal, como adivinhar por conta própria que com a poeira da sarjeta também escorreria a exatidão de mim mesma, e que o elo final se perderia por não ter se achado nunca? Nada posso contra isso. Nada - é o que restou, onde as gotas eclodem bolhas.