Os dentes que doem mais
sábado, 21 de março de 2009 @ 13:26
- Você por aqui de novo.
Afirmou categoricamente enquanto se prostrava ao meu lado, com o mesmo riso de sempre cravado no rosto sardônico. Desde que se entendia por si, ao menos. Eu, há muito estável em meu conforto de plástico, de avenida - e, pior, de ponto de ônibus -, pendi molemente para a esquerda, espalhando os bastantes livros pelo asfalto. Ágil e clínico estirou o braço, capturando um dos a tempo de alcançar o chão; súbito, novamente sob aquela imperativa carcaça de altivez, pediu licença sem hesitar por qualquer licença, baixando o olhar sobre a capa. Fitou-a atentamente na fração de segundo necessária para processar o título, alternando o olhar para mim, então. Sorriu e me estendeu a mão, que, antes de agarrar, também analisei cheia de resguardo e ceticismo pseudo-intelectual; e ele riu da imagem caricata, como que divertido pela sobriedade artificial. Cedi, por fim, apertando a dele docemente.
- É. De novo. Estou meio adiantada, mas é mais simples seguir daqui, sabe? Direto para lá.
- Sei. Lá. Fazer o quê?
- Outra consulta, são às terças-feiras.
- Também tenho uma hoje, meu bruxismo está de lascar - rangeu os dentes esboçando uma careta, da qual ri constrangida apenas para evitar o desconfortável silêncio de auto-consciência onde amor algum traria graça ao comentário. Tossiu, insuficiente a tentativa - "estou naquela fase cinzenta."
- Conheço. Lá. Sei.
- Mas a dor faz a realidade mais exata, não é mesmo?
- Acho que sim, se o momento for breve... Se for daquelas dores cíclicas, talvez só nos afaste mais dos nossos propósitos. Eu... Não sei. Quando o dente lateja, não dá para falar. Ou seja, a comunicação é nula. E você ainda fica fanho.
- Ah, mas o tempo é um bom médico. Pena que mate seus pacientes...
No ônibus, passamos a catraca e buscamos um assento próximo a passagem de ar-condicionado, onde sentamo-nos calados, dizendo sim, afirmando, sim, sim, sim à nossa vida presente, flamejante. Acontecemos. Agora. Vivemos o instante de sabermo-nos lá. Olhamo-nos e desmistificamos o sagrado: o milagre ocorre no intransponível momento de lucidez, e é ali que acaba.
- Meus dentes estão se deslocando para a frente. Sei que há dentes piores, mas me sinto disforme. Minha língua parece agir por conta própria. Juro que tento conter o curso, e realmente me esforço para posicioná-la no céu da boca, mas ela sabe como driblar a defesa. Quando me dou por acordada, já estou empurrando o maxilar. Você acha que eu estou feia?
- Sinceramente não me lembro de seus dentes. Passei a te enxergar há pouco.
- Mas e agora? Você reconhece alguma diferença?
- Alguma, sim.
- Por algum motivo em especial? - aprumo o coração, estalo os dedos, formulo possíveis revelações. Dura três segundos esse princípio de amor. Comprometida com o estar natural, mudo de posição e ponho em mim seus óculos. Debochado, gesticula com o dedo anular, dizendo não. Devolvo-os sóbria, atuando. "Pareço uma cafetina"; "por quê? Eu pareço?"; "não, eu só me sinto assim com eles".
- Enfim. Nenhuma dessas coisas afeta a impressão que tenho de você.
- Essas impressões que me assustam! Que poderiam me afetar de verdade, um dia. Nunca se sabe quando uma informação dispersa vai provocar impacto real no cotidiano. Espero manter minha reputação lá fora - disse, olhando à torto pela janela.
- É, claro. Estou despejando todas as minhas neuroses profissionais em você. Como não? Faço seu jogo. Vamos nos prostituir com uma torrente de chavões.
- Brincadeira, brincadeira. Sou tão indesejável? - e nesse instante desgarro-me de qualquer infantilidade tangível, solidificando a estrutura de aspereza e concreto por meio de uma aguda mordida encoberta pelos lábios cerrados, inexpressivos. Quietíssima, resguardo as habituais demonstrações de afeto inversas, as chamadas pentelhices. Não - esculpo uma postura de resolução impressiva, que sufoca em mim a intensa desolação e desejo de provocar, mais uma vez, reconhecimento. Não pelos olhos, mas pelos dentes, que se bastam no embate por vitória. Vê. Vê. É minha semântica desconexa. É meu signo de contato, portal de Alice.
- Não. Muito pelo contrário.
- (...)
- (...) Desço no próximo, lá. Sabe voltar sozinha?
- Sei chegar. De lá eu vejo.
- Boa sorte - e caminhou em direção à porta, onde hesitou pelo milésimo de segundo inexprimível em que os passageiros cuidavam das próprias tarefas, discando números no celular ou aguardando a descida solitária daquele que atravancava o espaço da porta para salivar. Só eu notei aquele tremor, cuja procedência ver-se-ia se calmamente, se muito mansos na qualidade de olhos lhe encontrassem outros olhos. Os dentes rangiam, perturbados de sentir o que não se ousa. Amor, talvez fosse.