Demian - Hermann Hesse
terça-feira, 5 de agosto de 2008 @ 01:18
Estás ligado a mim, mas não tu mesmo e sim apenas tua imagem; és uma parte de meu destino.
Vivia agora num contínuo ardor de anseios não realizados, numa espera incessante e tensa que chegava amiúde a enlouquecer-me. A imagem amada de meus sonhos surgia com freqüência diante de mim, mais clara e precisa do que se fosse um ser real; via-a mais nitidamente do que via as minhas mãos, chorava diante dela e maldizia. (...) Inspirava-me ternos sonhos de amor e devassidões obscenas; para ela nada era bom ou precioso demais nem demasiadamente mau e baixo.
Algumas vezes, vagando à noite pelas ruas, sem que me permitisse a inquietação voltar para casa senão de madrugada, pensava que meu amado já não podia custar a vir ao meu encontro e que o encontraria ao dobrar a esquina ou que o ouviria chamar-me da próxima janela. Outras vezes parecia-me cruelmente intolerável tudo isso e imaginava ter que desertar da vida.